Apaixonei-me pelo meu Ídolo – (Para Dante) » Leia as primeiras partes
ACOMPANHE-NOS EM NOSSAS REDES SOCIAIS:
Leia as primeiras partes

Para Dante

Sempre soube que um dia escreveria esta história, porque o meu maior desejo era poder mostrá-la ao mundo. Quando as marcas do tempo já estiverem tomando conta do meu rosto e os fios de cabelos brancos começarem a nascer, estes rabiscos serão documentos que contam uma história, a qual sobrevive às intempéries, como o amor daquelas donzelas desamparadas em frente a um porto, esperando o homem amado voltar de sua jornada ao mar bravio.

Ele é a memória que eu escolhi para carregar pelo resto da minha vida. Um astro da TV que me encaminhou para as melhores loucuras da minha vida. Foi para ouvi-lo cantar todas as vezes que estive lá, na primeira fila, onde quer que fosse. Mesmo que ele seja de mais um milhão de meninas, eu sei que ele será sempre meu também, pois eu compreendi isso desde que meus olhos encontraram pela primeira vez os dele, e, depois desse dia, já não me importa mais a teoria que as pessoas tenham sobre o “amor”. O que eu sinto por Dante transcende todas as definições físicas e espirituais. As pessoas exigem explicações para tudo na vida, isso diz respeito apenas aos adultos que aceitam viver essa vida sem sentimento. Crescer nos torna recauchutados, tudo passa a valer menos. As crianças, por sua vez, são mágicas. Só elas conseguem enxergar o amor, porque elas acreditam nele.

Cada momento em que penso em Dante é como se eu me encontrasse com Deus. Ele é a força e a coragem dentro do meu coração. O que me faz suportar os dias iguais, as pessoas infelizes, os programas sem graça que passam na TV e as filas do metrô. Não tenho necessidade de que ele me ame também, já o amo e isso faz minha vida ter significado.
Este não é só mais um lugar em um mundo qualquer, mas o mundo em que ele vive também. Sei que cada hora e minuto é parte de um plano para eu me encontrar com ele. As milhas que nos separam perdem todos os significados quando eu olho as estrelas, pois é como se ele estivesse aqui, agora.

Eu sou fã dele e, para ser sincera, a fã número um de tudo que há nele, até hoje nunca conheci alguém que combine camisas xadrez tão bem sem precisar de conceitos de moda fundamentados em teorias rebuscadas de estilistas famosos.
Suas canções me transportam para um lugar mais seguro da minha adolescência… Em todas essas minhas visões, ele está deitado em meu colo, como na nossa última vez juntos, há dois anos. Às vezes, fico sorrindo uma alegria incontida e tento permanecer lá, mesmo que o tempo me diga o contrário.

Para mim, ele nunca será uma modinha, tampouco apenas um garoto bonito. Ele é o cara da foto no meu mural que eu achei que nunca pudesse tocar, mas que, quando eu o fiz, tive a certeza de que sabia mais dele do que de mim mesma. Foi através dele que eu pude compreender a verdadeira essência do amor de uma fã: fiel e dedicado, sentido uma única vez na vida, incondicional. Como a criança que escolhe o seu brinquedo favorito em primeiro olhar. Um sentimento que foge de qualquer compreensão, apenas crê como alguém que tem fé no amor de Deus. E mesmo que a vida venha a tomar novos rumos, será para sempre parte de você, um tipo único de amor que pertence ao céu.

Enquanto os anos passam, agarro-me a todas as lembranças que tenho: cartas que guardo nas gavetas, fotografias que me fazem acreditar que ele está aqui outra vez. Sei, ainda, que foram de se contar nos dedos as vezes que nos encontramos, mas em todos os momentos eu estava sorrindo ao lado dele. Daria tudo no mundo para estar lá mais uma vez.

Sigo acompanhando sua vida de longe, e, onde quer que ele esteja, estou presente em alma. Hoje, aos vinte e um anos de idade, escrever sobre ele é dividir com o mundo uma parte viva do meu coração. Desejo que quando seus olhos cruzarem estas letras, elas possam acender, como uma fagulha num apagão, a chama que vive em todos os corações. Aquela chama interior que alimentou e ainda alimenta o meu coração todos esses anos. Ele é uma estrela, jamais posso apagá-lo da minha vida, porque as estrelas não morrem nunca.

Decidi chamá-lo de Dante. Em latim, Dante significa permanente, algo que é pra sempre. Ainda não me é permitido revelar o nome verdadeiro de alguém que se esconde há anos dentro do meu coração. Também não sei se ele ficaria feliz com a ideia de saber que mora dentro de um lugar que ele nem mesmo conhece.

A única diferença entre o real e o faz-de-conta, nesta história, é que o meu faz-de-conta acontece, e ele começou a ser real muito tempo atrás…

Se eu pudesse dar um conselho a todo mundo, eu diria: tenha um ídolo, mas não se apaixone por ele…

Penso sobre como é estranho amar alguém ao mesmo tempo estar cercada por mais um bilhão de pessoas. Os seres humanos acreditam ser um tanto racionais para o amor, quando, na verdade, não o são. Não temos como prever o futuro ou o destino de nossas paixões. O amor aparece quando a gente menos espera e até mesmo nas vezes em que a gente não quer. Parte de mim dói ao pensar que não foi fácil aceitar essa verdade, pois houve um tempo em que eu achei que iria encontrar meu príncipe, como naquelas histórias que todos nós gostamos de ler quando somos crianças. Mas essas são apenas histórias inventadas por uma mente brilhante para tentar fugir da ilusão do amor…

Ao tentar exemplificar o amor, pensei sobre quando a minha mãe disse adeus ao meu pai e se casou pela segunda vez, na vovó olhando nos olhos do meu avô, nos casais sentados na praça, parecendo perfeitos um para o outro e, por que não, na linda mulher que é traída pelo seu marido e, mesmo assim, não o abandona. O amor deve ser estranho, algumas vezes. Durante muito tempo eu duvidei dele, me afastei achando que nunca fosse acontecer comigo, mas, como eu disse anteriormente: o amor aparece quando você menos espera. Quando ele vem, permanece. Não é imediato, como mamãe pensou ser ao cair numa cilada do amor e me conceber, mas como ela vive agora com o meu padrasto. Porque o amor é apenas uma vez na vida e muito distante daqueles príncipes, cavalos brancos e afins dos contos de fadas pelos quais eu nutria uma crença verdadeira. Ele vem a pé ou voando, na fila do cinema, nas avenidas lotadas de carros. Não importa o jeito, mas ele vem, e quando ele chega, você abre a porta da frente e diz: “É ele”.

O impossível acontece

Toda primeira vez é como o riso de um bebê ao ver a mãe. É sem um antes ou um depois. É um acontecimento literalmente do presente, sem preparação ou palavras ensaiadas, é um momento que você acha que nunca vai existir e quando acontece você fica torcendo para que seja verdade e que se repita muitas outras vezes. Foi assim quando fiquei a primeira vez a sós com Dante, longe de todo aquele tumulto típico de show. Foi em Florianópolis. Era noite e todas as luzes da cidade estavam apagadas, não sei por qual motivo. Fui ao seu encontro. Seríamos apenas iluminados pelas luzes de uma marina que fica perto do hotel onde Dante sempre se hospeda. Um lindo cenário para tudo o que estava por acontecer.

Na noite que precedeu nosso encontro não consegui dormir nada. Do quarto do hotel eu olhava para a rodoviária e imaginava os motivos que levavam as pessoas até lá. Seria por amor? Um sorriso discreto me acompanhou durante a noite inteira enquanto a cidade dormia. Andei pelo quarto utilizando o pouco espaço que tinha para aproveitar cada minuto que eu podia respirar o mesmo ar que Dante. Finalmente estávamos na mesma cidade.
Era como se toda minha essência estivesse lá com ele. Ir até o hotel não poderia demorar tanto, o taxista tentou começar algum assunto, mas não consegui prestar atenção em nada, não por descaso, mas eu simplesmente não conseguia me concentrar em outra coisa que não meu encontro com Dante, eu de fato iria vê-lo. Não me lembro de nenhum outro fato na minha vida que me fez ficar tão nervosa quanto aquele dia. Dentro do elevador que me levava a Dante, tudo se misturava: imagens, sons, medo e felicidade. Eu sabia que era o momento certo, eu o amava mais do que a mim mesma.

Lembro-me que anotei o número do andar em um papel qualquer, mas apenas por segurança. Nunca me esquecerei daquele décimo quarto andar e nem das batidas do meu coração, que aumentavam à medida que o elevador subia. Quarto, quinto, sexto andar… Ainda me recordo do painel indicativo do elevador demonstrando os andares. Minha mão suava muito e eu estava me sentindo mais viva do que nunca. Automaticamente, a porta do elevador se abriu, e foi como se meu coração também aproveitasse a oportunidade e colocasse todo o meu sentimento para meu rosto, meu corpo e meus pensamentos. Sentia um frio congelante, como se eu fosse coberta por uma neve impossível de ocorrer naquela cidade, uma neve que era minha. Ao mesmo tempo, sentia o calor de mil sóis me derretendo de dentro para fora.
A primeira coisa que vi foi o lindo tapete que havia lá, tinha um vermelho vivo. Então, avistei os olhos de Dante, perdi qualquer linha de raciocínio… Malditos olhos cor de mel. A sua beleza tão sensata e curiosa e a simplicidade da voz calma faziam-me esquecer do mundo. Sem graça e sem conseguir parar de mexer no cabelo, eu amei aquele momento todo, bem como todas as consequências dele.

Nossa primeira oportunidade juntos: ele, eu e o corredor inteiro. Queria encostar logo nele para ver se era de verdade. Encostei delicadamente meus dedos no seu braço, aquilo me passava segurança porque percebi que ele, de fato, era real. A nossa imagem ficava refletida no vidro graças à luz fraca e amarelada do abajur que havia ali perto. Toda aquela cena perfeita fazia com que eu não me importasse com o amanhã ou qualquer outro dia. Dante era meu momento, comecei a pensar que éramos, inclusive, a mesma pessoa, de tão envolvida que eu estava. E ali, somente ao lado dele, eu não me importaria com nenhuma arrogância do mundo, porque ele estava comigo.

Não sabia o que falar, o olho dele sorria para o meu e tirava todo o vocabulário que eu havia adquirido ao longo da vida. Minhas mãos suavam de nervosismo, e, de tão próximos que estávamos, eu conseguia ouvir o mascar do seu chiclete. Em alguns momentos eu conseguia sentir o sabor da sua boca. Percebendo meu constrangimento, ele me falou, quase que no ouvido, sobre seu novo CD, família, sonhos e, dessa vez, sem precisar dividir a atenção com outro alguém: estávamos sozinhos dentro de nosso próprio mundo.

Nunca tive tanto medo como naquele momento, sabíamos que iríamos nos beijar. O clima que havia se formado por conta da situação falava mais alto do que o medo dos dois juntos. Os lábios de Dante sorriam para os meus e sua voz cochichava como se me contasse segredos.

Eu estava perto de completar dezoito anos e o meu maior medo era de beijá-lo. Dante era o meu momento, o melhor deles.

– Preciso ir. – Disse a ele, segundos antes de se tornar a garota mais covarde da face da Terra.
Dante me abraçou forte e, com a voz silenciosa, falou em meus ouvidos:
– Você sabe o quanto adoro você…

Imediatamente, a boca dele deslizou sobre os meus cabelos, tentando me roubar um beijo. E, como uma garota medrosa, afastei-me, apertando o botão do elevador para descer. Dante se distancia me observando de longe, sem conseguir entender minha atitude. Enquanto eu pedia perdão silenciosamente, vi a expressão de desapontamento se formar em seu rosto. Não que ele quisesse apenas meu beijo, mas aquela minha negação para sua investida era irracional: qual menina negaria um beijo a Dante?

O medo nos faz perder coisas e não beijá-lo naquele dia foi a única forma que encontrei de não o perder. Esse era o pensamento de uma menina de dezessete anos que só tinha beijado dois meninos até então. Queria fazer com que tudo saísse perfeito naquela noite.

Mas a vida faz sempre as coisas certas. Tinha convicção de que o meu medo não seria motivo para o fim de um futuro lindo, ele também sabia disso. Despedimo-nos através de olhares, sem nenhum contato maior. Senti-me um pouco mal por ter perdido aquela oportunidade, mas eu tinha certeza de que aquela era a escolha certa, tendo em vista que não seria a última vez que eu veria Dante.

Ficamos de novo frente a frente em uma outra viagem que ele fizera para Blumenau, também a trabalho. Agora com meus dezoito anos, sentia-me preparada para o que tivesse de acontecer. Não era nenhuma dificuldade, para mim, descobrir em qual lugar seria o próximo show, eu acompanhava a vida dele, mesmo que ele não soubesse disso.
E, mais uma vez num hotel, o elevador presenciou todo meu nervosismo. Eu ia em direção ao seu quarto como uma criança que encontra os pais depois de um longo período de solidão. Lívia, minha melhor amiga, aguardava-me no corredor. Sempre que precisei de alguém, Lívia estava lá. Ela é o tipo de pessoa que não desaponta seus amigos, que faz de tudo para os outros sorrirem, tem um coração enorme. Éramos inseparáveis no colégio e fora dele, isso nos dava uma certeza ainda maior de que nossa amizade não havia começado apenas por um grande acaso, éramos destinadas a construir uma relação de cumplicidade.

Em frente à porta dele, mesmo depois de já estar acostumada com a presença de Dante, continuava repetindo pra mim mesma:
– Estamos separados só por uma parede…
Lívia me abraçou antes de eu bater na porta do quarto de Dante, dizendo:
– Dessa vez não irei, você precisa tomar coragem e ir sozinha. Dante não quer ninguém por perto, vocês precisam desse momento.

Lívia costuma ser a pessoa mais segura que eu conheço e ela emanou sua coragem através do seu abraço. Bati com cuidado na porta. Como estava entreaberta, fui revelando aos poucos a escuridão que escondia a aparição do rosto dele. Vi que o quarto estava com uma iluminação limitada, mas, conforme eu ia abrindo a porta, num misto de delicadeza e medo, tudo ia se revelando mais claramente para mim. Dante me convidou para entrar.

Mesmo que temerosa, eu sabia que aquele seria só mais um dia em que procuraríamos conforto em algum lugar do hotel e discutiríamos sobre música. Contaríamos um para o outro os planos para o futuro e alguma pessoa que estivesse presente ficaria puxando assunto, enquanto nossos olhares ficavam presos um ao outro.

Era o nosso oitavo encontro e a segunda vez juntos, digo, juntos sem fãs e sem qualquer outra pessoa por perto. Ele me recebeu com um caloroso abraço e me convidou para sentar num sofá vermelho, no quarto duplex em que estava hospedado. As camas deviam ser no andar de cima. Havia um pedaço de tomate no chão, embaixo da mesa de lanche, da pizza que ele acabara de comer. Ele adora pizzas e isso foi motivo de risos, pois até o que poderia ser visto como descuido em outras pessoas, para mim era charme nele.

A cada encontro nosso eu via que eu estava deixando de ser a fã da primeira fileira para me tornar a garota que o deixava interessado, alguém que fazia nascer nele uma vontade de ter ao lado num lindo dia de sol, sem compromissos ou outras pessoas, só nós dois. Uma pessoa que ele sentia vontade de conhecer mais. Dante apoiou a cabeça sobre meus ombros e eu ajeitei o fio de cabelo dele que brincava com seus olhos. Ele tentou arrumar aqueles lindos cabelos do jeito que só ele sabia fazer, mas piorou tudo, como pode alguém guardar tanto charme? Durante muito tempo nos mantivemos assim, enquanto ele cantarolava suas canções, o que me fazia fechar os olhos. Em meio a um refrão fomos interrompidos por um ataque de risos meu, referente à sua gagueira charmosa. Não tinha medo daquele momento ou de beijá-lo, talvez esse tempo todo o meu único medo foi ter que vê-lo partir com uma lembrança apenas física dos nossos momentos.

É muito fácil aguentar a dor de uma imagem ilusória, mas quando ela se realiza a dor é pior porque você vive em confronto consigo mesmo, querendo o tempo inteiro voltar para aquele momento. Era, e ainda sou, completamente apaixonada por Dante, embora ele nunca venha verdadeiramente a saber o quanto.

Ficamos cerca de uma hora juntos. Perto da meia-noite decidi tomar uma iniciativa, pedindo para ele me acompanhar à porta. Nunca quis tomar muito o tempo de Dante, qualquer minuto que passasse ao lado dele era o suficiente para me fazer feliz, pouco tempo poderia ser uma eternidade com ele. Costumo dizer que o sucesso dele é o meu sucesso e, depois de um show realmente incrível, ele merecia uma maravilhosa noite de sono.

Partiríamos no dia seguinte para nossas cidades, eu um pouco mais cedo. Quando cada um estava na sua própria vida, distante um do outro, os quilômetros pareciam doer, mas quando eu estava com Dante era como se ele nunca fosse embora, uma segurança sem explicação. Sei que, de uma maneira ou de outra, ele também sentia isso. Caminhei até a porta enquanto Dante permanecia sentado me olhando.

– Preciso ir, não vai me acompanhar?
Ele permaneceu em silêncio, desaprovando minha atitude.
– Está tarde e amanhã acordo cedo. Você precisa descansar também, Dan.

Encostei-me na parede ao lado da porta, acompanhando o silêncio dos passos dele vindo ao meu encontro. Dante me encarava profundamente, deixando-me sem graça e sem saber o que fazer. Não queríamos nos despedir, mas sempre era preciso que alguém fosse embora.

Os olhos de Dante refletiam como diamantes nos meus de uma maneira tão provocante que chegava a me queimar, a doer; um veneno que esmagava todos os meus ossos, cada vez com mais força, aumentando o meu sofrimento e o meu desejo. O silêncio que pairava naquele instante ganhou o infinito com a respiração dele e as batidas do meu coração apaixonado. “Desejo você, preciso de você, não tenho medo.” Era isso que eu dizia a ele sem verbalizar meus sentimentos, como se eu tivesse a certeza de que ele me escutava por telepatia, como se ele falasse a linguagem dos meus olhos, do meu amor.

Pensei nas noites em que sonhava com Dan ao meu lado, tudo parecia tão distante como uma miragem no deserto. Nos sonhos eu não sentia seu perfume, não conseguia tocar seus cabelos. Agora a nossa distância podia ser medida por um palmo. Meus olhos não piscavam mais por necessidade, era meu nervosismo tentando quebrar a tensão que havia se instalado na pequena distância que nos separava.

Dante deu um passo apenas e agiu mais veloz que todos os desejos do meu corpo, como uma luz que acende em meio a uma escuridão extrema. E presa, petrificada e totalmente sem ação, eu não conseguia enxergar o que estava ao nosso redor. Apenas o via em mim, mesmo que o quarto estivesse escuro. A pouca luz que ali estava contornava a união de nossos lábios, feito uma imagem sagrada. Meus secos lábios molhavam-se suavemente com seu hálito gelado de inverno.
É perturbador pensar que não estávamos mais sozinhos sob o mesmo céu, mas com os nossos lábios selados embaixo de todas as estrelas daquela noite. A boca dele deve ter algum milagre, porque aqueceu toda minha circulação sanguínea e, ao mesmo tempo, pausou meu coração para que todo meu corpo soubesse que aquele momento existiu, misturando medo e prazer, felicidade e incerteza. Sua pele tocou meu rosto, nunca havia sentido a pele de um menino assim como a dele, quente e fina. Pedi a Deus para que ele não percebesse minhas lágrimas insistentes.

Como no filme Peter Pan, no momento em que todas as pessoas no mundo repetem a frase: “Eu acredito em fadas, eu acredito, acredito!”, eu repeti:

– Ele é de verdade. Não só mais o garoto dos meus sonhos, “intocável”, mas a minha realidade hoje.

Algumas pessoas, naquele momento, dormiam sonhando com o seu verdadeiro amor, umas estavam tristes por perdas, algumas saíram de casa para admirar a beleza da lua e outras contavam histórias de heróis para os seus filhos dormirem. Enquanto o mundo acontecia ao nosso redor, ele e eu estávamos unidos pela distância mínima entre duas pessoas. Era o gosto do beijo com o qual sempre sonhei, que procurei sem sucesso em outras bocas, que não tinha acontecido todos esses anos e que eu não imaginava ser tão bom.

Dante se afastou de mim delicadamente, como se não soubesse o que fazer. Com um olhar carinhoso, ele volta sorrindo para meu lado e diz:
– Não sei por que fiz isso.

Aquela frase soou como sino delicado que canta o nascimento de alguém, do nosso amor. O instante em que nossos lábios se tocaram foi como se eu estivesse acabado de nascer por várias e várias vezes. O ponto final que começava. O beijo era tudo que faltava entre nós, quer dizer, tudo o que fazia começar uma linda história.

– Eu te amo – pela primeira vez em toda a minha vida eu disse a alguém.

Dan me olhava e eu não conseguia prestar atenção em mais nada. Até hoje não sei se ele falou “Eu também” ou se foi apenas a minha vontade de ouvir. Toda a minha atenção estava voltada para a perfeição daquele momento, para o beijo, para a imagem dele e tudo que aquilo representava para mim.

– Beatriz, você é uma das fãs mais importantes para mim. É que, que… Você é diferente, sabe? Se você morasse em São Paulo, tudo seria mais fácil.

Repetia as frases seguro, como se esperasse o momento certo para me falar todas aquelas coisas. Os olhos dele brilhavam com verdade e, mesmo que ele continuasse em silêncio, é como se eu pudesse ler tudo que havia lá dentro. Era como se eu estivesse em dois lugares ao mesmo tempo, o mundo das minhas fantasias que eu criei aos nossos gostos, do nosso tamanho, e o da realidade.

Se, de fato, naquele instante, disse que me amava, o meu menino de sol falou o que durante todo esse tempo nunca esperei ouvir dele, deixando-me mais confusa do que o normal. Borboletas saíram voando do meu estômago, impedindo-me de dar qualquer resposta, apenas o fitando com meus olhos que brilhavam mais que uma noite de Natal.
O amor que ele dizia sentir não chegava ao mínimo do que sinto, mas aquele momento confuso e bom ao mesmo tempo me trouxe, de maneira contraditória, a certeza de que eu tinha um pedaço do coração dele só para mim.

A frase de Dante me fez acreditar que se morássemos perto haveria a possibilidade de ficarmos juntos. E ninguém sairia machucado como aconteceria se nos envolvêssemos agora. E, como se soubesse exatamente o que dizer, completou aquele momento falando:

– Não somos só para uma noite. Oh! Um presente para você – tirando uma goiabinha do bolso esquerdo do seu moletom (aquela em forma de barrinha de chocolate).
– Uma goiabinha! – sorrindo como uma criança que acaba de ganhar o presente mais bonito da loja de brinquedos – Dante, é o melhor presente que já recebi na vida!

Sorrindo desesperada, sem conseguir fechar os lábios, toquei a embalagem com cuidado, como se ela fosse uma metade dele. Confesso que nunca apreciei goiaba, mas após aquele acontecimento, goiaba se tornou a minha fruta preferida, e todas as vezes que a falta dele me consumisse eu comeria uma goiabinha e voltaria para aquele momento, ele estaria ali comigo e tudo ficaria certo. Nunca comi a goiabinha que Dante me deu, guardo-a junto às outras centenas de lembranças numa caixa colorida e dentro do meu coração.

Não queria me despedir dele, mesmo sabendo que não seria definitivo, porque, depois de tudo o que acontecera ali conosco, sem dúvidas haveria outros encontros. Despedimo-nos dando um tchau que valeria por até logo.
Dos muitos momentos que tivemos juntos, talvez esse tenha sido o mais emocionante. Havíamos nos beijado, concretizado um amor que, até então, era só meu. Lembro-me que, naquele dia, olhei nos olhos dele pela última vez como se fosse a primeira de todas, uma inversão de sentimentos que me fez seguir para o elevador sem forças.

– Até quando Deus quiser.

Foram as nossas últimas palavras.

Saí do quarto dele deixando parte de mim lá, uma Beatriz que acabara de nascer, feliz, mas ao mesmo tempo triste pela ausência que sucederia um fato tão lindo. Chegando ao quarto onde eu estava hospedada com Lívia, corri para a sacada, abri os braços para que a chuva que caía tocasse todas as partes do meu corpo. Lívia me imitou. Ficamos ali, dançando na chuva.

– Beatriz, está chovendo! Está chovendo! – ela falava como se eu tivesse previsto o futuro.
– Não disse?! Foi preciso chover para que eu ficasse com ele. O céu precisava chorar o nosso amor, talvez eu nunca mais veja Dante, mas nosso amor será eterno!

A última vez que Dante e eu nos encontramos havia sido perfeita, mesmo sem o beijo. Só que esta noite em Blumenau conseguiu superar qualquer coisa, ele havia surpreendido todas as minhas expectativas, me roubando um beijo e fazendo nascer dali algo que realmente poderia dar certo, deixando de ser o meu amor platônico para se tornar o meu amor real.

Dizem que quando você deseja algo do fundo do seu coração, o desejo corre mil vezes por todo o céu, como um floco de luz de todas as cores do arco-íris, voando sem parar por um milhão de moléculas mágicas no infinito. E quando ele, finalmente, toca Deus, o pedido se realiza. O meu havia se realizado.

Passei um bom tempo daquela noite repetindo mais de mil vezes a história para Lívia, sem que ela pudesse pegar no sono.

– Você está dormindo?
– Não – dizia ela com uma voz sonolenta.
– A gente se beijou, Lívia, eu ainda não acredito, é como se um sonho meu virasse realidade, como se as páginas de um livro de contos de fadas fossem partes de um dia…
– Quando ele a beijou eu estava no outro lado da porta.
Levantei da cama e sentei no chão:
– Não compreendi, estava me espionando? E toda aquela história de que precisávamos de um momento só nosso?
– Eu sei, não deveria. Mas teve uma hora que fui correndo para tentar ouvir algo entre vocês atrás da porta e ouvi você dizer que o amava, acho que o beijo já tinha acontecido, não é?

Os olhinhos dela cor de mel e o seu cabelo, que estava pior do que nunca de tão embaraçado, me fizeram ter um ataque de riso mais alto do que um avião levantando voo. Até sabendo da sua atitude, não me importei. Era Lívia, minha melhor amiga, de um jeito ou de outro ela saberia de tudo.

Lívia me abraçou naquele instante que eu tanto precisava de um abraço e falou o que sempre quis ouvir da sua boca:

– Sonhos se realizam e melhor do que você realizar um sonho é ver outra pessoa feliz por concretizá-lo. Quando é a sua melhor amiga, então… Bia, enquanto todas as pessoas riam do seu sonho, algumas horas atrás você estava ocupada beijando o seu amor!
Lívia, então, numa atitude de extrema amizade, o que não me deixou nem um pouco surpresa, disse:
– Estou tão orgulhosa de você por ter conseguido chegar até aqui, por não ter desistido em nenhum momento do seu amor por Dante…

Enquanto eu caminhava na complicada estrada que me levava até ele e aquele momento mágico que tivemos, Lívia foi a única pessoa com quem eu pude contar. “Eu acredito em você”, é o que ela costumava me dizer nos momentos em que tudo parecia querer dar errado.

Nunca fui a mais bonita da minha sala, nem a garota que todos os garotos sonham ter. Ao contrário, fui uma gordinha cheia de sonhos e planos. Sei, no entanto, que ainda brilho um pouco mais que todas as outras, e Dante sabia disso. Lívia fazia com que eu acreditasse nisso e, naquela noite estrelada de inverno, longe de nossos pais, duas adolescentes realizam seus sonhos. Felizes uma pela outra, na forma mais recíproca de uma amizade verdadeira.

O tempo poderia passar, mas nada do que eu sentia por Dante iria mudar. Os dias são apenas dias longe dele, não têm a mesma beleza daquele em que nos vimos e nos beijamos. Portanto, o tempo poderia passar da maneira que quisesse, nada mais importava, eu sabia que eu não era apenas uma fã.

Depois daquela noite era possível que não trocássemos telefonemas como um casal que se encontra normalmente, tive medo de qualquer reação que ele poderia tomar. Ele não era um garoto qualquer. Mas eu já estava acostumada a aceitar a saudade como algo que fazia parte da minha rotina. Tinha convicção de que nem a morte tiraria a minha felicidade quando eu entrava no meu quarto e ficava admirando por horas minha coleção de fotos. Agora, não eram apenas fotos de um garoto talentoso e sua guitarra, tinha também uma lembrança nova: Dante e eu nos beijando. E essa era a minha memória preferida.

Quando você está no caminho certo, não é preciso buscar as coisas, elas vêm ao seu encontro

Após algum tempo sem Dante voltar para o Sul, recebi uma ligação de um amigo de São Paulo, Rafael, que era responsável por um blog de Dan e amigo íntimo dele e de sua família. Rafa e eu nos falávamos quase sempre através da internet. Dante foi a ponte que nos aproximou. Encontramo-nos apenas uma vez no show de Dan, numa das casas de shows mais famosas de São Paulo. Em toda a trajetória de Dante, aquele show em 2007 teria sido o mais importante de sua carreira. Rafa nunca deixara de entrar em contato comigo quando o assunto era nosso ídolo.

– Dante está indo para Florianópolis na quinta-feira, vai acompanhado de mais alguns amigos para participarem de um evento – disse Rafa ao telefone.

E foi com aquela ligação no comecinho da noite que o Rafa me fez sentir como aquela menina de catorze anos, mesmo que eu já contasse dezenove primaveras. Foi como sentir tudo o que eu já havia vivido em poucos segundos. Aquele era o momento certo para matar a minha saudade de Dante. Tinha planos de ir para São Paulo, mas se ele veio até mim antes, algo teria que ser feito.

Decidi ligar antes de ele estar, de fato, em Florianópolis. Senti-me uma menina nervosa ao discar o número no celular, tão apaixonada quanto antes, como se o tempo não tivesse passado. O tempo, na verdade, nunca importou muito para mim. Minha relação com Dante pertencia a outro universo, atemporal, que era regido por um movimento perfeito entre amor e dedicação: se eu me dedicava para saber tudo da vida dele, eu o amava e, de um jeito ou de outro, mesmo que dentro dos meus pensamentos, ele também me amava.

– Alô – ele me diz com o sotaque irresistível.
Digo envergonhada:
– Oi, Dante, sou eu, a Beatriz… Do Sul.
Neste instante, ele pareceu dar um pulo e se levantar de onde estava.
– Bia?
– Sim, Dante, sou eu… – eu disse dando um sorriso tão grande quanto eu nunca imaginava poder sorrir – É que eu soube que amanhã você estará aqui em Santa Catarina… Eu queria muito ver você, sinto saudades!
Como senti saudades de ouvir a voz dele, de conversar com ele, mesmo que fosse o assunto mais idiota Dante faz tudo se tornar importante.
– É claro, estou com saudades também. Não sei ainda o nome do evento ao qual irei, mas você pode me ligar amanhã à tarde que saberei.

Tudo que estava relacionado a Dante eu sabia de última hora: hotel, horários de voos e afins. Construí uma amizade com o pessoal da produção dele. Eu recebia as referências dele, de onde estaria, onde ficaria hospedado diretamente da produção. Só que hoje, quando preciso de alguma informação, ligar para ele é bem melhor. Faz-me perceber o quão longe eu cheguei.

Como um pisca-pisca aceso na meia-noite de Natal, senti a voz dele me guiar dentro de mim mesma.

– Ligo para você amanhã, Dante, fica com Deus!
Queria chamá-lo de “meu pequeno príncipe”, mas não tive coragem.
– Vou ficar feliz por ver você, Bia.

Estava louca para contar tudo para Lívia, ela precisava saber, e eu, sobretudo, precisava dela ao meu lado nesse momento. Era quinta-feira à noite quando liguei para Lívia convidando-a para um novo plano, uma missão que não valeria nada sem ela. Lívia estava na universidade e me retornou apavorada ao ver minhas tantas ligações como chamadas perdidas em seu celular.

– O que aconteceu?
– Dante está vindo para Florianópolis – respondi agitada.
Percebi uma risada do outro lado da linha.
– Você precisa ir comigo, Lívia.
– Eu sei, Bia, mas meus pais não vão deixar.
– Então iremos usar o nosso plano de sempre: dormir na casa de uma amiga, só que desta vez não será na minha. Você dirá para eles que vai passar o final de semana na casa de uma amiga da faculdade para terminar o TCC e, então, voltamos no domingo à noite. Pronto, perfeito!

Ela não sabia dizer não para mim quando se tratava de Dante.

– Tudo bem, sua louca, mas como nós vamos?
– Deus escreve tão certo que, amanhã, o meu pai está indo a Florianópolis num evento de carnaval que acontecerá lá, iremos com ele e dormiremos no apartamento da tia Santina. Já conversei com eles, está tudo certo.

Meu pai é a minha versão masculina, quando põe algo na cabeça vai até o fim. Ele acredita em mim, mais do que qualquer pessoa, talvez mais até do que Lívia. Um dia estava indo na casa dele fazer uma visita e olhei, no seu quarto, um mural de fotos no qual estava escrito: “Mural dos desejos”. Havia ali, naquele espaço que era só do meu pai, dos sonhos dele, uma foto minha e de Dante, um sentado ao lado do outro. Desde aquele dia ele se tornou meu herói e a imagem que eu tinha de pai ausente na minha infância se tornou nula. Percebi que ele me amava e que, como qualquer outro pai, queria muito a minha felicidade. Comecei a não mais temer um amor crescente que eu sentia por ele, meu pai era sim aquele que eu queria ter. Minha mãe me teve com dezesseis anos e o relacionamento dos dois durou um pouco mais que dois anos. Tudo ocorreu, talvez, por imaturidade de ambas as partes, mas eu os amava. Só quando cresci comecei a compreender algumas coisas da vida, como os relacionamentos passageiros, o amor e o fim dele também.

Como planejado, seguimos com meu pai para Florianópolis. Na viagem, ouvimos músicas de carnaval, enquanto Lívia e eu fofocávamos no banco de trás como se o tempo não tivesse passado. Era novembro e faltava apenas cinco dias para o meu aniversário, aquele final de semana seria o melhor presente adiantado que já recebi, não precisaria de mais presentes.

Nos meus aniversários costumo organizar algo, mesmo que seja simples. Minha mãe não gosta de passar a data em branco. E desde que me apaixonei por Dante era a falta dele que sentia todas as vezes que as luzes se apagavam e cantávamos parabéns. Quando soprava a velinha, meu pedido era o mesmo desde que conheci Dante: que não demorasse muito para nos encontrarmos novamente.

Os pedidos feitos nas noites de aniversários sempre se realizam. Pode parecer besteira acreditar que um simples sopro em direção a uma vela comprada num supermercado qualquer possa realizar sonhos, mas o que realmente funciona é a verdade que se dá ao sonho. Ter muita fé em um desejo é fazer dele algo concreto. Após alguns dias e depois de assoprar algumas velas, estava lá no site mais um novo show de Dante no meu estado e, então, eu fazia as malas e ia acompanhar meu ídolo. Funcionava dessa maneira.

Nas viagens que me levam até Dante costumo levar um Ipod para ouvir a trilha sonora de um filme que vou imaginando a cada metro percorrido, uma linda história de amor. Atrevo-me a dizer que alguns dos encontros chegaram a ser exatamente como eu havia imaginado. Às vezes, alguns de meus amigos me contavam as histórias de amor vividas por eles e eu me perguntava: quando algo assim iria acontecer comigo? E agora, quando tudo isso estava acontecendo, tive noção do que era a verdadeira felicidade. Não é uma simples alegria, é algo muito maior.

Sentia-me mais ansiosa do que das outras vezes. Dante e eu tínhamos algo não terminado, o começo de uma história. Eu não sabia nada ainda sobre a viagem dele, só que ele estaria lá à noite. Para mim, era como se ele fosse a Florianópolis só para me ver. Fiquei fantasiando na minha mente a ansiedade que ele poderia estar sentindo, as dúvidas que solucionaríamos juntos… Imaginava-o tão lindo como ele costuma ser, só que agora com um pedacinho de mim na existência dele.

Enquanto eu observava a entrada da Ilha de Santa Catarina, comentei com Lívia que aquela cidade era um lugar cheio de sonhos, era ali onde eu mais tinha visto Dante. Sempre que ia a Florianópolis a lembrança de todos os nossos momentos vinha à tona. Florianópolis foi o lugar onde me tornei inesquecível para Dante. Blumenau também era importante, mas aquela ilha tem um sentido especial.

O apartamento da tia Santina ficava a algumas quadras da entrada da cidade e, por ter chegado exausto, papai foi o único que conseguiu passar o resto da tarde dormindo. Lívia e eu, no entanto, fomos caminhar pela beira-mar, deixando o tempo passar, para então, às vinte horas, ligar para Dante como combinado. Demorei um pouco para criar coragem, meu coração foi à boca e voltou ao lugar umas três ou quatro vezes, mas consegui discar os números.

– Oi, Dante, é a Bia, já chegou?
– Oi, Bia! Poxa, estamos na estrada ainda. Tem como você me ligar mais tarde, é porque estamos indo de carro.
Apesar disso ter me deixado mais preocupada e ansiosa, disse que retornaria a ligação perto das vinte e duas horas. Foi inevitável pensar que ele estaria me evitando, comentei com Lívia e ela logo respondeu:
– Bia, pare de pôr coisas na sua cabeça, você sabe que ele a adora, deve ter acontecido alguma coisa.
– E se ele não gostou da vez em que a gente ficou, Lívia? – nesse momento já estava aos prantos pedindo colo de amiga.
– Não mesmo, Beatriz, eu conheço Dante. Irei ligar para o seu amigo Rafael para saber o que está acontecendo, já que você se encontra sem condições de falar com ele.

Ao telefonar para Rafael, Lívia descobriu que Dante decidiu de última hora vir de carro com alguns amigos famosos, todos participariam do evento. Para aumentar a minha agonia, Lívia contou que o carro deles havia quebrado no meio do caminho e esse era o motivo do atraso.

– Viu, bobona? Agora vamos esperar mais umas duas horinhas e ligar para ele.

Depois dessa frase tranquilizadora de Lívia, consegui suspirar feliz por saber que todos os meus pensamentos pessimistas eram mentiras sem fundamento.

Chegando à casa da tia Santina, depois de algum tempo caminhando à beira-mar, deparamo-nos com Laís. Ela era amiga do meu pai e iria passar a noite no apartamento da tia Santina conosco. Ela era mais nova do que Lívia e eu, mas falava as coisas com tanta segurança que parecia mais velha. A partir daquela noite ela se tornaria uma das minhas mais novas melhores amigas.

Não demorou muito até chegar o horário combinado e eu pudesse ligar para Dante. O tempo realmente é engraçado, passa de maneira diferente em cada situação. Quando eu estava nervosa, querendo mais um tempo para me preparar, ele passou voando, era hora de ligar para meu amor.

– Anda, Bia! Liga, liga! – falavam elas me puxando de um lado para o outro.
– Já está na hora, dona Beatriz – retrucava Lívia.
– Põe no viva voz, quero ouvir a voz dele – resmungou Laís.

Ligando para Dante minha mão começou a suar e a minha voz a ficar trêmula, ele é a única pessoa que faz com que eu me sinta esquisita e bem ao mesmo tempo, é uma mistura tão boa… E, é claro, meus olhos ficaram iluminados como dois diamantes quando ouvi:

– Alô, minha linda! Cheguei a Florianópolis e irei ao Carnafloripa, o que acha de ir lá?

Desapontamento e nervosismo dominaram meus pensamentos. Meu pai havia acabado de sair para esse mesmo evento, um carnaval antecipado, mas eu e as meninas decidimos não ir, mesmo depois de insistentes convites. Neguei por pensar que Dante não iria àquela festa…

– Não irei, Dante.
– Irei me hospedar no Hotel Gran Maestro, será que você consegue ir até lá amanhã para me ver?
– É claro!

Um silêncio toma conta da ligação. Ambos esperavam que o outro falasse alguma coisa. Decidi falar:

– Beijo, até amanhã! – ao falar isso, desliguei o telefone tomando cuidado para não bater com muita força.
Sem que eu pudesse falar algo, Laís e Lívia saíram correndo da sala para o quarto, fazendo-me correr atrás delas sem nenhum motivo aparente. Jogaram todas as minhas malas no chão me intimando a ir ao evento atrás de Dante.
– Vocês estão loucas? Eu não posso fazer isso!

Aquela situação me fazia rir e ao mesmo tempo gostar da preocupação de minhas amigas. Lívia sempre soube que tenho queda por situações malucas, não gosto de coisinhas combinadas, ou de horas certas. Gosto de morrer esperando na fila, de observar as estrelas do alto do morro, de coisas que me façam viver. E isso era uma das causas que me faziam amar mais ainda Dante, a maneira com que ele me mostrava como tudo pode ser surpreendente.

– Agora você vai ter que desfilar para nós com todas as suas roupas!

Ao ver toda aquela roupa espalhada, retirei um vestido do chão e comecei a fazer um show.
Não podia acreditar no que estava acontecendo, mas ao mesmo tempo me sentia muito feliz, percebi que o sonho não era só meu. O único problema foi lembrar que para entrar na festa era preciso a credencial dos foliões: o abadá.

– Problema resolvido, Bia, põe este short branco, vai ficar lindo.

Lívia pensou rápido, com a ajuda de Laís, tinham medo de que eu desistisse de ir atrás de Dante naquela noite. A roupa não importava muito, o que realmente me interessava era encontrar Dante.

– Não se preocupem, meninas, eu jamais perderia esta noite.

Vesti, então, meu belo short branco, com uma blusa estilo batinha, para trocar depois pelo abadá. Laís caprichou na maquiagem, isso fez com que eu me sentisse bonita. Talvez não tenha sido o short ou a batinha, mas o empenho das minhas amigas me fez a mulher mais linda do mundo. Para completar o look, usei um salto que aumentou minha altura em dez centímetros, mas não foi o sapato que me deixou mais alta, foi a confiança que eu tinha de que tudo daria certo com o apoio das minhas grandes amigas.

Saímos daquele apartamento uma hora da manhã, quando o show já devia ter começado. E ainda precisaríamos comprar o abadá. Foi maravilhoso saber que o evento ficava a quadras de onde eu estava. Eram três meninas, nas altas horas da noite, andando numa cidade grande à procura do seu grande amor. Na verdade, o meu amor.

Os semáforos piscavam sem parar por conta do tardar das horas. O estacionamento do local do show estava lotado, tudo estava muito cheio. Lívia correu direto para um cambista e pechinchou o abadá mais barato. Todos os camarotes já estavam esgotados e, obviamente, Dante já devia estar em algum deles. Mas nessa noite o importante não era vê-lo cara a cara, mesmo que de alguns metros eu precisava vê-lo.

Consegui comprar um abadá por cento e oitenta reais, o mais barato. Com ajuda de uma faca, cedida por um senhor que vendia pipoca, cortamos e rasgamos o abadá de todos os jeitos, até ficar com um modelo bonito, foi a coisa mais mal feita que eu já vesti!

No final, após uma ideia brilhante minha aprendida na época em que fazia faculdade de moda, o abadá saiu lindo. Estilo uma blusa grega com nós por todos os lados. Até então, essa teria sido a coisa mais louca que já fiz por Dante: após duas horas desde que falei com ele pelo telefone, estava ali comprando um abadá e indo a um lugar em que não conhecia ninguém, na madrugada, só para vê-lo.

Adquira o livro para ler o resto dessa historia aqui!

Laguna - Santa Catarina. Para maiores informações entre em contato conosco através do nosso formulário ou pelo nosso telefone: (48) 9917-4455.
Scroll To Top